Autor José Pacheco

Vinte anos atrás, em plena pandemia, foram muitas as estórias que o protagonista desta estória e as Cecílias de então me inspiraram. Ainda de passagem por Portugal, recordo o jovem que fui nestas paragens. Esta estória fala-nos de um inexperiente professor que se deixara influenciar por um grupo considerado marginal, nesses perturbados e perturbadores tempos. Um grupo de educadores politicamente incorretos, que dava pelo nome de… Movimento da Escola Moderna.

Com professores “marginais” aprendeu uma máxima que o iria acompanhar na sua trajetória de profissional do desenvolvimento humano: olha para o que és (ou pretendes ser como pessoa e professor), não olhes para o que outros fazem (ou não fazem, ou não são).

Ele leu tudo o que havia para ler, ou o deixavam ler, num tempo em que ninguém ouvira falar do Piaget. Se encantou com a leitura do Freinet do “texto livre”, no original francês, que um exilado político lhe havia oferecido. Mas já começava a descrer da cartilha. Ele bem tentava imitar o Freinet e a Elise, mas os quarenta alunos, que havia herdado de um austero professor à moda antiga, não saíam dos canônicos “a vaca dá leite, ossos e carne”, “a vaca é muito importante para a nossa alimentação etc.”

Naquele tempo, a palavra liberdade ainda inspirava em muitos espíritos sentimentos contraditórios. De modo que, quando colocados perante a possibilidade de rabiscarem “redações” a que o jovem professor teimava em chamar “textos livres”, os jovens perguntavam:

É a lápis, ou a caneta? Quantas linhas se deixa depois do título? Quantas linhas manda escrever?

Naquele tempo, alguns sobreviventes da última “classe masculina” tinham na ponta da língua a tabuada, sabiam de cor as estações de caminho de ferro e o sistema galaico-duriense, desenhavam na perfeição a caneca da praxe e ainda sabiam entoar a música (já só a música!) do hino fascista “somos pequenos lusitos”, que o tempo de o Jesus do crucifixo estar ladeado por dois ladrões ainda não ia longe e a Biblioteca Popular do Salazar não tinha sido desmantelada, apesar da ordem expressa dos novos poderes.

O professor desta estória já havia trocado o livro didático pelo “texto livre” e pelo “livro da vida”. “Invertera a aula”, com recurso a “ficheiros autocorretivos”. Já havia instalado a “imprensa Freinet” e feito funcionar a “correspondência escolar” e a “cooperativa escolar”. Realizara “assembleias de turma” e muitas “aulas passeio”. Foi, então, que entendeu – dizem os brasileiros que os portugueses demoram a entender… – o busílis da questão.

Eureka! O professor continuava sozinho, na sala de aula, com a sua “turma”! À semelhança de escolas waldorf, escolas montessorianas e pedagógicos quejandos, ele enfeitara o sarro da “aula” com uma parafernália de dispositivos escolanovistas, sem que, efetivamente, lograsse passar o centro do processo de aprendizagem do professor para o aluno.

Há vinte anos, sem se darem conta do ridículo da situação, gerações sucessivas de pesquisadores e de decisores políticos iam acrescentando novas demãos daquilo a que chamavam “inovação” – “metodologias ativas”, “aulas híbridas e invertidas”, “games”, “flexibilizações curriculares” e outros paliativos do modelo instrucionista – a uma escola inerte e irreformável. Continuavam teimosamente a persistir na ficção aberrante de um currículo pronto-a-vestir de tamanho único, igual para todos e capaz de todos formatar, como se todos fossem ou devessem ser um só.

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