Educação para o povo


Autor Marcus De Mario

A origem da escola para todos, pública e gratuita, está em Pestalozzi (1746-1827), que dedicou sua vida para a educação e a escola que recebesse as crianças pobres, propiciando-lhes educação integral, permitindo o desenvolvimento de suas faculdades morais, intelectuais e físicas. Suas experiências educacionais em Stanz, Burgdorf e Yverdon (esta com vinte anos de duração), todas na Suíça, foram marcantes, além da publicação de seus livros, com destaque para duas obras: Leonardo e Gertrude e Como Gertrude Ensina Seus Filhos.

Hoje a escola pública faz parte do cotidiano brasileiro tanto no contexto municipal, estadual e federal, da educação infantil ao ensino superior. Entretanto, se por um lado temos a universalização escolar para todos, por outro temos uma escola pública sucateada, burocratizada e que privilegia o desenvolvimento das faculdades intelectuais (de forma não muito pedagógica), numa educação desequilibrada e que, ao contrário do que deveria acontecer, exclui as camadas mais pobres da população do seu contexto, ou seja, temos uma escola pública que, na prática, não é para todos.

Muitas escolas públicas nas periferias das grandes cidades brasileiras mais se parecem com prisões: muros altos, grades em portas e janelas, falta de recursos, professores desmotivados, altos índices de fuga das crianças, excluídas por um sistema que aborta a criatividade e a participação delas no processo, e que não leva em conta a realidade social em que estão inseridas.

E agora temos um governo federal que trabalha para acabar com as escolas públicas, ou transformá-las em escolas militares, forçando o estabelecimento da educação (ensino) domiciliar, onde os pais seriam os únicos responsáveis pela educação dos filhos. Perguntamos: como pais analfabetos, semianalfabetos, com pouca cultura, excluídos sociais, pobres, ou mesmo na miséria, sem nenhuma noção pedagógica, poderão fazer o papel dos professores e da escola?

E mais: sendo a educação muito mais que a instrução, devendo considerar o processo de aprendizagem, e não apenas o de ensinagem, o que se propõe não é repetir na família o que a escola pública hoje faz? Ou seja: ensinar, ensinar, ensinar … e não educar!

Hoje os professores sabem ensinar conteúdos de disciplinas curriculares, isso quando não são meros repetidores do que já está formatado em livros didáticos e apostilas. Isso não é educação! A proposta governamental é simplesmente transferir esse modelo para a família, fazendo os pais serem repetidores de conteúdos dos livros, das apostilas e da internet.

A verdade é que há décadas trabalhamos para derrubar a escola pública e desviar a educação de suas altas finalidades, mantendo a população, o povo brasileiro, à margem do crescimento moral, intelectual, físico e técnico que já deveria ter alcançado, mas isso não é de interesse dos governantes, pois se assim fosse feito, uma educação que desenvolvesse harmonicamente todas as potencialidades do ser humano, teríamos um povo consciente, crítico e que não admitiria falcatruas, corrupção, desonestidade, acordos de gabinete, privilégios, desvios de verbas e assim por diante, e muito menos admitiria a manutenção de um poder discricionário, seja de esquerda, direita ou centro.

Teríamos uma população que se bateria pela democracia, contra a injustiça social, e que trabalharia pela melhor distribuição de renda, sem privilégios para grupos com intensões escusas, mantendo o governo sob controle.

A escola pública deveria promover, pela educação, essa realidade.

Está na hora de fazermos duas perguntas: por que a escola pública não promove verdadeiramente a educação, e por que, ao longo do tempo histórico, não conseguiu produzir esses bons frutos?

E outra pergunta: por que Pestalozzi, seu ideal e sua obra, foi sumariamente expulso e esquecido da educação pública brasileira?

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